Fadista Carlos Leitão luta contra cancro e desabafa: «Decidi ir ao cemitério fazer não sei bem o quê»

Carlos Leitão, fadista, autor, compositor, guitarrista, escritor e jornalista português, de 47 anos de idade, revelou, no passado dia 31 de agosto, que foi diagnosticado com cancro. «“É um cancro”. Diagnóstico, perspectivas, cirurgias, tratamentos, tudo encavalitando-se em velocidade irrefreável. O tumor ocupa espaço e empurra para o lado tudo o resto: trabalho, contas, o vizinho chato, o empate do Benfica, as trombas do empregado ou o café frio, tudo se torna igual e esquecível. Como aprendi com quem lida com “isto”, eu não combato ou venço um cancro, é mera tentativa ilusória de comando. O sacana veio mais manso do que uma perdiz, mas voou alto, em silêncio, de fininho, como um adolescente ébrio a entrar de madrugada. Castigou-me, instalou-se, e cresceu até as análises de rotina meterem a boca no trombone. E derrubou-me, não no sentido bélico da relação, mas o lado racional que é fundamental para tratarmos do futuro, juntos: eu, “ele”, os médicos, a minha mulher, a minha família e os meus amigos», começou por escrever nas redes sociais.
«Decidi ir ao cemitério fazer não sei bem o quê em meia hora de silêncio desabafado em frente à campa do meu pai, abracei os meus enteados com a certeza de que a travessia tem de ser feita com amor, e eu que pouco me dou a esoterismos e “mindsets” deixei então entrar amor às carradas, tão fortes que chego a julgar duvidoso o seu merecimento. Fechei-me em egoísmo estranho que não tivera antes, para depois proteger todos os que não têm cancro e gostam de mim. É como se preocupar-me comigo fosse coisa secundária. E lá chegou a noite (sempre a noite) a deitar gasolina para a fogueira. A revolta superior às dores, o medo a medir o desconhecido, e quando claudiquei foi para poder ter colo e para me suportar nas horas capituladas do desespero. Com a arrogância de achar que sou preciso, sei que ando a ser valente; sinto-o quando o corpo me fraqueja. Às dores dou-lhes o abraço da Vanda que tudo serena, e elas amagam-se. Às da alma ofereço o que escrevo, as visitas dos amigos, os jantares no terraço, os passeios esforçados pela minha linda vila», acrescentou.
«Os vieses da doença desarmam mais quando se acorda numa cama de hospital sem um pedaço físico que desconjuntou o puzzle que era o meu corpo. Nasce a dor imensa da tangibilidade. É uma bizarria sem cabimento. Sou tão vulnerável, pensei quando ouvia o meu vizinho do lado gemendo a dor, tão vulnerável quanto a perdiz que não se apercebe do caçador matreiro atrás da moita. É duro, as armas são desiguais. Vejo lá à frente a esperança, ignorante, esparvoada de tão infantil que pode ser. Ando a arrumar-me e a aproveitar a baixa para decidir futuros. Dizem que ajuda em tempos adversos. E daqui por um ano quero contar todos os passos em frente que dei no cancro e na vida, com roupas leves de linho e um chapéu Borsalino, ao género Bogart, que eu ando a adiar na minha vida. Os tratamentos começaram hoje. Seguimos. Juntos», rematou Carlos Leitão.

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